Durante muitos anos, o sucesso dos sistemas de transporte urbano foi medido por indicadores como volume de passageiros, velocidade comercial, redução dos tempos de deslocamento e cobertura da rede. Embora essas métricas continuem sendo importantes, elas já não são suficientes.
Em um contexto de urbanização acelerada e crescente pressão das mudanças climáticas, o transporte deve ser compreendido como uma ferramenta estratégica para impulsionar o desenvolvimento econômico, a inclusão social e a sustentabilidade das cidades.
A América Latina é uma das regiões mais urbanizadas do mundo, com mais de 80% da população vivendo em áreas urbanas. Globalmente, estima-se que quase 70% da população mundial viverá em cidades até 2050. Essa tendência traz desafios significativos: expansão urbana para áreas periféricas, aumento das distâncias de deslocamento, congestionamentos, poluição atmosférica e crescente pressão sobre as infraestruturas existentes. Países como México, Colômbia e Peru figuram de forma recorrente entre aqueles com os maiores níveis de congestionamento viário.
Diante desse cenário, o planejamento dos sistemas de transporte não pode mais ser desenvolvido de forma independente do planejamento urbano.
Essa necessidade deu origem ao conceito de Desenvolvimento Orientado ao Transporte Público (TOD na sigla em inglês), uma estratégia de planejamento que promove a concentração de habitação, empregos, atividades comerciais e serviços públicos no entorno de corredores de transporte de alta capacidade. O objetivo é criar cidades mais compactas, caminháveis e sustentáveis, nas quais a mobilidade atue como um vetor de desenvolvimento e não apenas como um serviço público.
A experiência internacional demonstra que os projetos de transporte geram impactos que vão muito além da mobilidade em si.
Na Colômbia, por exemplo, o sistema TransMilenio transformou a forma como milhões de pessoas se deslocam em Bogotá e reconfigurou parte da estrutura urbana da cidade. Ao mesmo tempo, trouxe uma importante lição: construir infraestrutura de transporte, por si só, não é suficiente para garantir um desenvolvimento urbano equilibrado. Para explorar plenamente seu potencial, os investimentos em mobilidade devem ser coordenados com o planejamento do uso e ocupação do solo, políticas habitacionais, qualificação dos espaços públicos e estratégias de desenvolvimento econômico.
Por essa razão, o sucesso de um sistema de transporte não deve ser medido apenas pelo número de passageiros transportados ou pela velocidade dos serviços oferecidos. Ele também deve ser avaliado por sua capacidade de gerar empregos no entorno das estações, ampliar o acesso da população a serviços essenciais, atrair investimentos privados, revitalizar espaços públicos, reduzir as emissões de gases de efeito estufa e diminuir desigualdades territoriais.
Em outras palavras, o verdadeiro impacto do transporte está em sua capacidade de transformar positivamente as cidades.
Como engenheiros, urbanistas e tomadores de decisão, enfrentamos um desafio que vai muito além do projeto de infraestrutura. Os empreendimentos de mobilidade do futuro devem ser concebidos por meio de uma abordagem interdisciplinar, integrando transporte, planejamento urbano, economia, sustentabilidade e políticas públicas.
Cada nova linha de metrô, corredor de Bus Rapid Transit (BRT) ou sistema ferroviário representa uma oportunidade de alcançar resultados muito além do simples deslocamento de pessoas. Esses projetos podem se tornar poderosos indutores de produtividade, competitividade, inclusão social e qualidade de vida.
A questão já não é apenas como transportar mais passageiros, mas como garantir que cada projeto de transporte contribua efetivamente para a construção de cidades melhores.